Durante alguns meses, ou anos, você foi mais próximo dela que de qualquer outra pessoa. Tinham, um com outro, mais sinceridade do que consigo mesmos. Ela o conhecia nos seus mais íntimos detalhes, seus medos, suas fraquezas, suas auto-embromações. Lia seus pensamentos. Você dizia a ela coisas que não diria ao padre, ao psicanalista, nem ao médium, depois de morto. Tragava o hálito dela, bebia sua saliva. “Em cismar, sozinho, à noite”, você sentia necessidade física do cheiro dela, como sente de comer. Seus corpos, unidos, pareciam representar as potencialidades metafísicas do mundo; no encaixe perfeito dos corpos no espaço, você sentia um elã místico, que o fazia se sentir, embora perto demais dos porcos, elevado acima dos anjos. Toda a eternidade em um segundo. Você conhecia o corpo dela melhor do que ela mesma. E, como você “palmilhasse vagamente” aquela estrada pedregosa, a Máquina do Mundo se lhe entreabria, “majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável”, mostrando “toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada”. Lambiam os esgotos do corpo um do outro, e gostavam muito. Ingeriu, meu amigo, ingeriu muco cervical. Possíveis filhos seus, milésimos de segundo antes de morrer, suspiraram: - “Droga! Não é o ovário, mas o estômago”. Lembra-se das horas de aperto? O mundo pareceu que se reconstituiu com aquela mensagem, guinado pela força de uma única palavra: “Veio”. Então tudo acabou por um motivo idiota, foi cada um para o seu lado e vocês nunca mais se viram nem se falaram.
domingo, 29 de julho de 2007
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