domingo, 29 de julho de 2007
"A quadrilha", do Drummond, na era da internet
P.Q.P, Nelson Rodrigues!
Durante alguns meses, ou anos, você foi mais próximo dela que de qualquer outra pessoa. Tinham, um com outro, mais sinceridade do que consigo mesmos. Ela o conhecia nos seus mais íntimos detalhes, seus medos, suas fraquezas, suas auto-embromações. Lia seus pensamentos. Você dizia a ela coisas que não diria ao padre, ao psicanalista, nem ao médium, depois de morto. Tragava o hálito dela, bebia sua saliva. “Em cismar, sozinho, à noite”, você sentia necessidade física do cheiro dela, como sente de comer. Seus corpos, unidos, pareciam representar as potencialidades metafísicas do mundo; no encaixe perfeito dos corpos no espaço, você sentia um elã místico, que o fazia se sentir, embora perto demais dos porcos, elevado acima dos anjos. Toda a eternidade em um segundo. Você conhecia o corpo dela melhor do que ela mesma. E, como você “palmilhasse vagamente” aquela estrada pedregosa, a Máquina do Mundo se lhe entreabria, “majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável”, mostrando “toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada”. Lambiam os esgotos do corpo um do outro, e gostavam muito. Ingeriu, meu amigo, ingeriu muco cervical. Possíveis filhos seus, milésimos de segundo antes de morrer, suspiraram: - “Droga! Não é o ovário, mas o estômago”. Lembra-se das horas de aperto? O mundo pareceu que se reconstituiu com aquela mensagem, guinado pela força de uma única palavra: “Veio”. Então tudo acabou por um motivo idiota, foi cada um para o seu lado e vocês nunca mais se viram nem se falaram.