Meus amigos. Acaba-me de acontecer algo que eu jamais, em hipótese alguma, julguei possível. É uma experiência totalmente irreal, totalmente alucinatória. São três horas da manhã, tenho de acordar às seis. Acabo de bater o telefone: discutia, ao berros, com minha namorada. De minha boca pende a baba elástica do homicida. E, então, paro por um segundo e penso: - E se eu fosse gay?
Ah, se eu fosse gay tudo seria tão mais fácil! Penso na minha namorada, na minha mãe, nas minhas irmãs. Então penso no meu pai, nos meus amigos. Os homens são tão mais fáceis de se conviver! É verdade que as mulheres são superiores em quase tudo. Mais honestas, mais sinceras, mais responsáveis, mais estudiosas. Mas quem quer conviver com seres melhores? (A única profissão em que os homens são melhores é o direito, e justamente porque são piores. O exercício do metiér de Ruy Barbosa requer certa canalhice, certa pusilanimidade, com que só os homens foram brindados. Mas, tendo a opção de escolher uma médica ou um médico, eu jamais escolheria o macho.)
Por que, por que, meu Deus, eu nunca senti atração por homens? Que mal fiz eu aos deuses todos pra precisar, desesperadamente, de mulher, pra não poder viver sem? Se pelo menos eu fosse eunuco, soprano, travesti! Mas não, deste-me, maldito tirano, um pinto, e o desejo de usá-lo com mulheres! Mulheres! Condenado, eternamente, a ser um homem, esse bicho que “luta a vida toda para merecer a benção da impotência senil” (Alexandre Soares Silva), um Sófocles agradecendo aos deuses por finalmente ter ficado livre dos impulsos do próprio pinto e poder se dedicar à vida espiritual, aos oitenta anos de idade. A vida do homem, hoje, é muito difícil. Vejam vocês: eu discutiria, sem o menor problema, com o maior doutor, o maior gênio, o maior político, e ainda confiando na vitória. Mas, pelo amor de Deus, não me peçam para discutir com uma mulher. Eu não sou tão bom assim. Se a memória não me falha muito, Schopenhauer considera, em Como vencer um debate sem ter razão, uma arte dialética impossível vencer uma mulher numa discussão. Toda mulher tem, dormindo dentro de si, a espera do macho que a acorde, uma Heloísa Helena torrencial, inestancável.
Já para as bichas é tudo tão fácil! Vão às suas baladas específicas, onde todo o mundo quer a mesma coisa, conseguem o que querem com a maior facilidade, sem joguinhos estúpidos, sem pormenores entediantes, sem cu-doce, sem afetação de dificuldade, sem precisar conversar, ser agradável, pagar a conta, levar pra casa, discutir a relação... Todo o mundo quer o mesmo: ninguém precisa ficar implorando pro parceiro dar o rabo, ele quer mais é dar logo. Ninguém tem de ouvir que “ai, amor, mas depilar dói tanto!” Ninguém precisa ficar brincando com o clitóris da senhorita enquanto o saco lhe explode...
Mas não é só sexualmente, vejam bem, não é só sexualmente. A vida é melhor para os viados, e os viados são melhores, em tudo. Eles têm os melhores amigos, os melhores cargos, mais dinheiro e, além do mais, conhecem as melhores mulheres.
A nós, premiados com a maldição da heterossexualidade, fica o resto.