quinta-feira, 17 de maio de 2007

Eu e o mundo exterior

Definitivamente, eu não sou uma pessoa sociável. Sabia que minha aversão àquelas dinâmicas estúpidas da escola ia dar merda. Porque , na sexta série, eu não quis abraçar o meu coleguinha e lhe contar do que eu gostava, hoje sou essa pessoa infeliz, frustrada, amarga e direitista.

Vejam este caso que me aconteceu outro dia. Estava em um restaurante self-service. Não era caro, mas num bairro de classe média e alta, freqüentado por profissionais liberais, funcionários públicos, estudantes etc. Estou eu, comodamente em minha mesa, seguindo este rígido cronograma: coloco o garfo na mão esquerda, corto um pedaço de bife, volto-o para a mão direita, aposento a faca na borda do prato, como o pedaço de bife, largo o garfo na borda do prato, e começo a pensar em como convencer minha namorada de que não me encontrei com aquela menina que me deixou um scrap dizendo que nosso encontro tinha sido ótimo. Repito o processo, pensando em como empurrar de volta Chico Chico no Fubá e Mano Caê para hors de la littérature. Quando ia começar tudo de novo, pensando em como devolver o Babalorixá de Banânia ao zoológico de que saiu, o mundo exterior, totalmente esquecido durante todo esse tempo, me chama. Eis o que dizia o mundo exterior:

- Posso sentar aqui?

Nada descreve o meu espanto. E ele quadruplicou quando olhei ao redor e notei que havia mesas perfeitamente vazias. Tô num restaurante almoçando e um sujeito que nunca vi mais gordo vem querer sentar na minha mesa? Que porra é essa? É óbvio que se estivéssemos numa biblioteca, ou numa praça, ele teria todo o direito de sentar. Mas num restaurante? Eu estava pagando por aquelas cadeiras vazias a me fazer companhia, caralho. Minha solidão custa caro e pago por ela com prazer.

Mas o mundo exterior. Minha vontade evidente foi pegar delicadamente aquele prato que o mundo exterior segurava e afundar o prato na cara do mundo exterior e o mundo exterior na cara do prato. Como, porém, essa monstra horrenda, chamada civilização, acabou com tudo o que havia de bom-selvagesco, lulesco e mstesco em mim, me transformando num ser hipócrita, fútil e dissimulado, não fiz nada disso.

- Pode.

A partir daí, entrei em alfa e abstraí totalmente o mundo exterior, tanto o que estava em volta como o que sentava ao meu lado. Me concentrei no meu prato, avultei a cara de cu e não dirigi um olhar sequer para o lado. Acabei de comer, levantei e fui embora.

Um pintinho

Havia, lá, naquele banheiro, um mijatório coletivo, grande, e as cabinas de pequenos mijatórios individuais. Nos horários de pico, os mijatórios individuais ficavam lotados. 95% dos homens, mesmo assim, preferiam esperar vagar algum mijatório individual a usar o mijatório coletivo. Donde concluo que 95% dos homens têm algum tipo de complexo com o próprio pau. Reflexo óbvio da Era do Pornô, if you know. A humanidade é ridícula.

O dia em que eu quis ser gay

Meus amigos. Acaba-me de acontecer algo que eu jamais, em hipótese alguma, julguei possível. É uma experiência totalmente irreal, totalmente alucinatória. São três horas da manhã, tenho de acordar às seis. Acabo de bater o telefone: discutia, ao berros, com minha namorada. De minha boca pende a baba elástica do homicida. E, então, paro por um segundo e penso: - E se eu fosse gay?

Ah, se eu fosse gay tudo seria tão mais fácil! Penso na minha namorada, na minha mãe, nas minhas irmãs. Então penso no meu pai, nos meus amigos. Os homens são tão mais fáceis de se conviver! É verdade que as mulheres são superiores em quase tudo. Mais honestas, mais sinceras, mais responsáveis, mais estudiosas. Mas quem quer conviver com seres melhores? (A única profissão em que os homens são melhores é o direito, e justamente porque são piores. O exercício do metiér de Ruy Barbosa requer certa canalhice, certa pusilanimidade, com que os homens foram brindados. Mas, tendo a opção de escolher uma médica ou um médico, eu jamais escolheria o macho.)

Por que, por que, meu Deus, eu nunca senti atração por homens? Que mal fiz eu aos deuses todos pra precisar, desesperadamente, de mulher, pra não poder viver sem? Se pelo menos eu fosse eunuco, soprano, travesti! Mas não, deste-me, maldito tirano, um pinto, e o desejo de usá-lo com mulheres! Mulheres! Condenado, eternamente, a ser um homem, esse bicho que luta a vida toda para merecer a benção da impotência senil” (Alexandre Soares Silva), um Sófocles agradecendo aos deuses por finalmente ter ficado livre dos impulsos do próprio pinto e poder se dedicar à vida espiritual, aos oitenta anos de idade. A vida do homem, hoje, é muito difícil. Vejam vocês: eu discutiria, sem o menor problema, com o maior doutor, o maior gênio, o maior político, e ainda confiando na vitória. Mas, pelo amor de Deus, não me peçam para discutir com uma mulher. Eu não sou tão bom assim. Se a memória não me falha muito, Schopenhauer considera, em Como vencer um debate sem ter razão, uma arte dialética impossível vencer uma mulher numa discussão. Toda mulher tem, dormindo dentro de si, a espera do macho que a acorde, uma Heloísa Helena torrencial, inestancável.

para as bichas é tudo tão fácil! Vão às suas baladas específicas, onde todo o mundo quer a mesma coisa, conseguem o que querem com a maior facilidade, sem joguinhos estúpidos, sem pormenores entediantes, sem cu-doce, sem afetação de dificuldade, sem precisar conversar, ser agradável, pagar a conta, levar pra casa, discutir a relação... Todo o mundo quer o mesmo: ninguém precisa ficar implorando pro parceiro dar o rabo, ele quer mais é dar logo. Ninguém tem de ouvir que “ai, amor, mas depilar dói tanto!” Ninguém precisa ficar brincando com o clitóris da senhorita enquanto o saco lhe explode...

Mas não é sexualmente, vejam bem, não é sexualmente. A vida é melhor para os viados, e os viados são melhores, em tudo. Eles têm os melhores amigos, os melhores cargos, mais dinheiro e, além do mais, conhecem as melhores mulheres.

A nós, premiados com a maldição da heterossexualidade, fica o resto.